Tudo o que ele fazia era ficar sozinho. Isolava-se, fechava-se e corria a pontapé tudo o que se aproximasse, sem querer saber das intenções ou vontades dos outros. Apenas se sentia bem sozinho, separado de todos aqueles que não conseguia compreender. Todos eles.
No entanto, bem lá no fundo daquela jaula que construíra em redor de si próprio, perdido algures numa escuridão silenciosa, estava aquele vazio de sempre. O buraco negro que o acompanhava desde criança, o pedaço de carne que lhe faltava entre as costelas, perto do coração. Era uma ferida cuja origem desconhecia, mas que sempre ali estivera, e sempre soube o que dali se havia sumido.
De forma instintiva, o seu corpo dizia-lhe o que devia procurar. Revelava-lhe o mapa com as indicações para o tesouro que lhe havia sido roubado antes ainda de nascer.
Era mais do que certo que o que lhe faltava era outra pessoa.Uma certeza tão primitiva e visceral que não podia ser contradita.
Encerrada algures no corpo de uma mulher estava a peça do puzzle que um dia o haveria de completar, com as veias e artérias que se iriam ligar ás suas na perfeição, restaurando a circulação da sua alma.Mas sozinho era como ele estava, e sozinho era como aprendera a estar.
Só existia desconfiança no seu olhar, uma hostilidade profunda para com o mundo inteiro. Não sabia sequer porquê, mas a agressividade era a resposta mais simples a todos os seus problemas.
Um murro bastava para abrir um caminho e um pontapé rapidamente removia qualquer obstáculo. Sabia o que era o medo, mas apenas porque o via nos olhos dos outros. Reconhecia o pânico ao ver alguém fugir de si. Não era algo que lhe agradasse ou desagradasse, era apenas a ordem natural das coisas.
Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010
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