Tudo o que ele fazia era ficar sozinho. Isolava-se, fechava-se e corria a pontapé tudo o que se aproximasse, sem querer saber das intenções ou vontades dos outros. Apenas se sentia bem sozinho, separado de todos aqueles que não conseguia compreender. Todos eles.
No entanto, bem lá no fundo daquela jaula que construíra em redor de si próprio, perdido algures numa escuridão silenciosa, estava aquele vazio de sempre. O buraco negro que o acompanhava desde criança, o pedaço de carne que lhe faltava entre as costelas, perto do coração. Era uma ferida cuja origem desconhecia, mas que sempre ali estivera, e sempre soube o que dali se havia sumido.
De forma instintiva, o seu corpo dizia-lhe o que devia procurar. Revelava-lhe o mapa com as indicações para o tesouro que lhe havia sido roubado antes ainda de nascer.
Era mais do que certo que o que lhe faltava era outra pessoa.Uma certeza tão primitiva e visceral que não podia ser contradita.
Encerrada algures no corpo de uma mulher estava a peça do puzzle que um dia o haveria de completar, com as veias e artérias que se iriam ligar ás suas na perfeição, restaurando a circulação da sua alma.Mas sozinho era como ele estava, e sozinho era como aprendera a estar.
Só existia desconfiança no seu olhar, uma hostilidade profunda para com o mundo inteiro. Não sabia sequer porquê, mas a agressividade era a resposta mais simples a todos os seus problemas.
Um murro bastava para abrir um caminho e um pontapé rapidamente removia qualquer obstáculo. Sabia o que era o medo, mas apenas porque o via nos olhos dos outros. Reconhecia o pânico ao ver alguém fugir de si. Não era algo que lhe agradasse ou desagradasse, era apenas a ordem natural das coisas.
Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010
Quinta-feira, 22 de Julho de 2010
Sonhos Recorrentes , o Remix
Desde pequeno que tenho vários sonhos recorrentes,alguns que se repetem desde ha muitos anos, outros que são relativamente mais recentes. A maioria não tem nexo absolutamente nenhum,alguns são mesmo um pouco assustadores. Há alguns dias tive dois desses sonhos durante a mesma noite, o que me deixou a pensar no seguinte:
"E se um dia os sonhasse a todos ao mesmo tempo?E se os misturasse, fundisse e amontoasse numa só série de imagens estapafúrdias? "
Achei a ideia interessante o suficiente para perder tempo a imaginar esse sonho. O resultado seria qualquer coisa deste género:
"Estou dentro de um enorme jipe preto, completamente nu. Enquanto seguro o volante com uma mão, com a outra como bolachas,originárias de uma qualquer fonte inesgotável. Comigo no carro estão os os meus pais, os meus irmãos e os meus avós,todos encavalitados em cima uns dos outros (e vestidos).Através da janela do jipe vejo que conduzo pela encosta de uma montanha abaixo, numa fuga frenética á medida que toda essa montanha entra em erupção,transformando-se num vulcão de proporções bíblicas. Gigantescos rios de lava escorrem pela encosta abaixo, aproximando-se perigosamente do jipe, e o próprio solo racha-se e desfaz-se em fissuras abismais. O céu,que me parece bem perto do tejadilho do carro, está completamente negro.
Deslizo e derrapo pelo vulcão abaixo,calmo e sereno na minha condução,enquanto toda a minha família grita histericamente. Como mais bolachas pelo caminho.
Finalmente, e depois de um período de tempo indefinido, afasto-me do perigo. Não sei bem onde estou,mas já não estou no jipe. Estou sozinho.
Á minha frente vejo as ruínas carbonizadas daquilo que outrora fora uma casa. Apenas a estrutura se encontra de pé, postes de madeira acinzentada erguem-se de uma densa camada de cinzas, como se fossem costelas de um esqueleto por desenterrar.
Deambulo por ali,perdido, e de alguma maneira encontro a entrada para a cave.
Existem jaulas de ferro de todos os tamanhos e feitios espalhadas por todo o lado, completamente enegrecidas e queimadas pelo fogo. Mas no meio de toda aquela escuridão vejo também vários tons de vermelho, já que diversos cadáveres, ou o que resta deles, se encontram amontoados ou pendurados um pouco por toda a cave. O chão que piso cola-se aos meus pés descalços, já que o sangue e as cinzas,misturados, transformam-se numa polpa pegajosa e grotesca.
Não me consigo lembrar do que aconteceu naquela cave,não faço a mínima ideia mas, de alguma forma, sei que o culpado sou eu. Fui eu quem cometeu aquela chacina horrenda, e esse pensamento martela-me o cérebro com uma força doentia, não me deixando esquecer essa culpa. Parece que o meu crânio está prestes a rebentar e dou por mim a suster a respiração.
Por fim, sem conseguir aguentar mais, saio para a rua a correr, de volta para o jipe. Tenho ainda uma bolacha na mão.
Sem saber bem como, estou de novo a conduzir (ainda nu) e a comer as mesmas bolachas. A viagem passa-se sem sobressaltos e acaba por se desvanecer e esbate-se num burrão indefinido,como se tivesse fechado os olhos.
Ao voltar a abri-los, apercebo-me de que estou deitado numa cama enorme. Ainda estou nu,mas já não estou sozinho (e as bolachas desapareceram finalmente). A meu lado está um corpo adormecido que reconheço antes ainda de o ver. Mantenho-me completamente imóvel, com medo de a acordar. Observo o seu corpo de alto abaixo e recordo-me de todas as linhas que desenham aquela silhueta..."
Chegado a este ponto, decidi não escrever mais, porque o conteúdo ia resvalar quase para a pornografia. Nada de hardcore, mas explicito o suficiente para que não o queira escrever aqui.
Portanto, a modos que é isto.
"E se um dia os sonhasse a todos ao mesmo tempo?E se os misturasse, fundisse e amontoasse numa só série de imagens estapafúrdias? "
Achei a ideia interessante o suficiente para perder tempo a imaginar esse sonho. O resultado seria qualquer coisa deste género:
"Estou dentro de um enorme jipe preto, completamente nu. Enquanto seguro o volante com uma mão, com a outra como bolachas,originárias de uma qualquer fonte inesgotável. Comigo no carro estão os os meus pais, os meus irmãos e os meus avós,todos encavalitados em cima uns dos outros (e vestidos).Através da janela do jipe vejo que conduzo pela encosta de uma montanha abaixo, numa fuga frenética á medida que toda essa montanha entra em erupção,transformando-se num vulcão de proporções bíblicas. Gigantescos rios de lava escorrem pela encosta abaixo, aproximando-se perigosamente do jipe, e o próprio solo racha-se e desfaz-se em fissuras abismais. O céu,que me parece bem perto do tejadilho do carro, está completamente negro.
Deslizo e derrapo pelo vulcão abaixo,calmo e sereno na minha condução,enquanto toda a minha família grita histericamente. Como mais bolachas pelo caminho.
Finalmente, e depois de um período de tempo indefinido, afasto-me do perigo. Não sei bem onde estou,mas já não estou no jipe. Estou sozinho.
Á minha frente vejo as ruínas carbonizadas daquilo que outrora fora uma casa. Apenas a estrutura se encontra de pé, postes de madeira acinzentada erguem-se de uma densa camada de cinzas, como se fossem costelas de um esqueleto por desenterrar.
Deambulo por ali,perdido, e de alguma maneira encontro a entrada para a cave.
Existem jaulas de ferro de todos os tamanhos e feitios espalhadas por todo o lado, completamente enegrecidas e queimadas pelo fogo. Mas no meio de toda aquela escuridão vejo também vários tons de vermelho, já que diversos cadáveres, ou o que resta deles, se encontram amontoados ou pendurados um pouco por toda a cave. O chão que piso cola-se aos meus pés descalços, já que o sangue e as cinzas,misturados, transformam-se numa polpa pegajosa e grotesca.
Não me consigo lembrar do que aconteceu naquela cave,não faço a mínima ideia mas, de alguma forma, sei que o culpado sou eu. Fui eu quem cometeu aquela chacina horrenda, e esse pensamento martela-me o cérebro com uma força doentia, não me deixando esquecer essa culpa. Parece que o meu crânio está prestes a rebentar e dou por mim a suster a respiração.
Por fim, sem conseguir aguentar mais, saio para a rua a correr, de volta para o jipe. Tenho ainda uma bolacha na mão.
Sem saber bem como, estou de novo a conduzir (ainda nu) e a comer as mesmas bolachas. A viagem passa-se sem sobressaltos e acaba por se desvanecer e esbate-se num burrão indefinido,como se tivesse fechado os olhos.
Ao voltar a abri-los, apercebo-me de que estou deitado numa cama enorme. Ainda estou nu,mas já não estou sozinho (e as bolachas desapareceram finalmente). A meu lado está um corpo adormecido que reconheço antes ainda de o ver. Mantenho-me completamente imóvel, com medo de a acordar. Observo o seu corpo de alto abaixo e recordo-me de todas as linhas que desenham aquela silhueta..."
Chegado a este ponto, decidi não escrever mais, porque o conteúdo ia resvalar quase para a pornografia. Nada de hardcore, mas explicito o suficiente para que não o queira escrever aqui.
Portanto, a modos que é isto.
Quinta-feira, 29 de Abril de 2010
Beto
Um aperto de mão frouxo, mole.A camisola por cima dos ombros. O cabelo à fodasse a cair-lhe para os olhos. Os mesmos olhos com que me observa e avalia, de alto abaixo,como se eu fosse uma espécie de adversário. Como se houvesse algum tipo de competição,como se ele tivesse alguma hipótese.
Adivinho-lhe,por detrás do sorriso falso,todos os pequenos pensamentos que ecoam na sua diminuta cabeça. É óbvia a forma como me julga e sentencia, à medida que a conversa se desenrola. Alguns desses pensamentos e opiniões conseguem escapulir-se e fazem-se ouvir,em voz alta.
É quase de admirar a forma como se tenta destacar e impor, como cada frase e cada história e opinião fantástica são apenas mais uma maneira de se superiorizar.
E sem se aperceber, a cada sentença e a cada argumento que elabora, vai revelando aquilo que realmente é. Vêm ao de cima todas as futilidades que lhe regem a vida. Ficam à superfície todos os mais pequenos defeitos, a boiar como cadáveres em decomposição.
Torna-se óbvia a forma como julga o mundo em seu redor baseado apenas no reflexo baço da sua própria vida. Os seus horizontes são delineados apenas pela distância a que o carro da mamã o consegue levar. Ou que a carteira do papá lhe consegue pagar.
Não tenho paciência. Consigo ser hipócrita apenas durante breves minutos. Respondo-lhe de forma torta,mas firme,duas ou três vezes. Olho-o bem nos olhos de criança mimada. A sua fachada desmorona-se com um castelo de cartas. De súbito,parece que tem um sitio onde ir,fazer não sabe o quê. Aperto-lhe de novo a mão, um aperto firme que de certeza lhe vai triturar alguns ossos.
Adeus, senhor Joao Maria Dinis Afonso Manuel Menezes de Albuquerque Maia Silva Mendonça e Sá.
Adivinho-lhe,por detrás do sorriso falso,todos os pequenos pensamentos que ecoam na sua diminuta cabeça. É óbvia a forma como me julga e sentencia, à medida que a conversa se desenrola. Alguns desses pensamentos e opiniões conseguem escapulir-se e fazem-se ouvir,em voz alta.
É quase de admirar a forma como se tenta destacar e impor, como cada frase e cada história e opinião fantástica são apenas mais uma maneira de se superiorizar.
E sem se aperceber, a cada sentença e a cada argumento que elabora, vai revelando aquilo que realmente é. Vêm ao de cima todas as futilidades que lhe regem a vida. Ficam à superfície todos os mais pequenos defeitos, a boiar como cadáveres em decomposição.
Torna-se óbvia a forma como julga o mundo em seu redor baseado apenas no reflexo baço da sua própria vida. Os seus horizontes são delineados apenas pela distância a que o carro da mamã o consegue levar. Ou que a carteira do papá lhe consegue pagar.
Não tenho paciência. Consigo ser hipócrita apenas durante breves minutos. Respondo-lhe de forma torta,mas firme,duas ou três vezes. Olho-o bem nos olhos de criança mimada. A sua fachada desmorona-se com um castelo de cartas. De súbito,parece que tem um sitio onde ir,fazer não sabe o quê. Aperto-lhe de novo a mão, um aperto firme que de certeza lhe vai triturar alguns ossos.
Adeus, senhor Joao Maria Dinis Afonso Manuel Menezes de Albuquerque Maia Silva Mendonça e Sá.
Sábado, 5 de Dezembro de 2009
Eu sei.
Sim eu sei que sou esquisito.
Também sei que estou sempre sozinho.
Não precisam de me dizer que sou estranho.
Não,não gosto de falar sobre isso.
Porque não.
Deixem-me em paz.
Não quero explicar porque é que não sou atiradiço.
Ou porque é que sou tão timido.
Nem porque é que não falo sobre as minhas relações.
Sim,eu sei que sou teimoso.
Mas a pergunta que faço é:
Que porra de interesse é que tudo isso tem,para quem quer que seja?
Também sei que estou sempre sozinho.
Não precisam de me dizer que sou estranho.
Não,não gosto de falar sobre isso.
Porque não.
Deixem-me em paz.
Não quero explicar porque é que não sou atiradiço.
Ou porque é que sou tão timido.
Nem porque é que não falo sobre as minhas relações.
Sim,eu sei que sou teimoso.
Mas a pergunta que faço é:
Que porra de interesse é que tudo isso tem,para quem quer que seja?
Sábado, 17 de Outubro de 2009
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Hoje procurei por ti. Não te vi nos carros que passavam,não te vi por entre a multidão matinal, nem encontrei o teu reflexo nos vidros das janelas,a espreitar, a procurar por mim.
Hoje fizeste-me falta. Mas não senti a tua mão na minha,os teus dedos nos meus,nem os meus lábios na tua pele.
Hoje fechei os olhos e imaginei-te ao promenor, com as virtudes e defeitos que formam a enorme peça de um puzzle que eu queria completar.
Mas hoje não te consegui ver,delinear nem inventar. Começo a acreditar que não és mais do que um mito, uma lenda distante na qual os mais ingénuos acreditam.
Porque hoje senti-me vazio,como sempre me tenho sentido, e neste desespero ridiculo de quem teme passar o resto dos seus dias sem ninguém a quem abraçar, amar e ser amado, apercebi-me do quão sozinho estou.
Por isso hoje procurei por ti,mesmo sabendo que não te ia encontrar.
Hoje fizeste-me falta. Mas não senti a tua mão na minha,os teus dedos nos meus,nem os meus lábios na tua pele.
Hoje fechei os olhos e imaginei-te ao promenor, com as virtudes e defeitos que formam a enorme peça de um puzzle que eu queria completar.
Mas hoje não te consegui ver,delinear nem inventar. Começo a acreditar que não és mais do que um mito, uma lenda distante na qual os mais ingénuos acreditam.
Porque hoje senti-me vazio,como sempre me tenho sentido, e neste desespero ridiculo de quem teme passar o resto dos seus dias sem ninguém a quem abraçar, amar e ser amado, apercebi-me do quão sozinho estou.
Por isso hoje procurei por ti,mesmo sabendo que não te ia encontrar.
Domingo, 11 de Outubro de 2009
Andar em circulos
Parece-me que estou a andar para trás. Não como quem viaja no tempo, mas sim como quem repete os mesmos passos vezes sem conta, na ilusão de que está a progredir, quando na verdade a paisagem parece ser sempre a mesma. Sempre o mesmo borrão cinzento que me rodeia, as mesmas silhuetas vagas de coisas e pessoas que me são indiferentes. Os mesmos ecos, as mesmas palavras ocas e gastas de sentido,os mesmos erros e o mesmo sentimento de culpa provocado por todos esses falhanços.
E no fim de tudo, não consigo ver ou descobrir uma solução,uma resposta ou um novo caminho que me ajude a sair deste circuito fechado. Não consigo,sequer,imaginar o meu futuro. Não me consigo adivinhar daqui a dois,cinco ou dez anos:
A carreira promissora numa qualquer área, a casa onde talvez venha a viver, os lábios que poderei beijar e chamar meus, os filhos que talvez nunca venha a ter, tudo isto escondido por um manto negro que me aterroriza e cega.
Morro de medo. Assusta-me pensar que tudo o que me está destinado é um grande nada, um zero absoluto que não é nada mais que o reflexo da minha própria inutilidade.
Nada mais me resta se não enfiar as mãos nos bolsos, olhar algures para os meus pés, e continuar andar, até que um dia me encontre finalmente, ou esbarre contra mais um obstáculo.
E no fim de tudo, não consigo ver ou descobrir uma solução,uma resposta ou um novo caminho que me ajude a sair deste circuito fechado. Não consigo,sequer,imaginar o meu futuro. Não me consigo adivinhar daqui a dois,cinco ou dez anos:
A carreira promissora numa qualquer área, a casa onde talvez venha a viver, os lábios que poderei beijar e chamar meus, os filhos que talvez nunca venha a ter, tudo isto escondido por um manto negro que me aterroriza e cega.
Morro de medo. Assusta-me pensar que tudo o que me está destinado é um grande nada, um zero absoluto que não é nada mais que o reflexo da minha própria inutilidade.
Nada mais me resta se não enfiar as mãos nos bolsos, olhar algures para os meus pés, e continuar andar, até que um dia me encontre finalmente, ou esbarre contra mais um obstáculo.
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